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74. Espaços pré-parados, por Márcio Ramos
A filosofia da rotina. Entrevista com Zygmunt Bauman
O que é que nos leva a procurar sempre novas histórias?
A necessidade de amar e ser amados, em uma contínua busca de satisfação, sem nunca estarmos certos de estarmos suficientemente satisfeitos. O amor líquido é justamente isso: um amor dividido entre o desejo de emoções e o medo do vínculo.
Portanto, estamos condenados a viver relações breves ou à infidelidade…
Ninguém está “condenado”. Diante das diversas possibilidades, cabe a nós escolher. Algumas escolhas são mais fáceis e outras mais arriscadas. As escolhas aparentemente menos comprometedoras são mais simples do que as que requerem esforço e sacrifício.
Mas o senhor viveu um amor duradouro, com a sua esposa Janina, que morreu há dois anos.
O amor não é um objeto pré-confeccionado e pronto para o uso. É confiado aos nossos cuidados, precisa de um compromisso constante, ser regenerado, recriado e ressuscitado todo dia. Acredite, o amor satisfaz essa atenção maravilhosamente. Quanto a mim (e espero que também tenha sido assim para Janina), eu posso lhe dizer: assim como o vinho, o sabor do nosso amor melhorou ao longo dos anos.
Hoje, vivemos mais relações ao longo de uma vida. Somos mais livres ou apenas estamos mais amedrontados?
Liberdade e segurança são ambos valores necessários, mas estão em conflito entre si. O preço a pagar por uma maior segurança é uma menor liberdade, e o preço de uma maior liberdade é uma menor segurança. A maior parte das pessoas tenta encontrar um equilíbrio, quase sempre em vão.
Porém, o senhor envelheceu junto com a sua esposa: como vocês enfrentaram o tédio da cotidianidade? Envelhecer juntos está fora de moda?
É a perspectiva do envelhecimento que já está fora de moda, identificada com uma diminuição das possibilidades de escolha e com a ausência de “novidade”. Aquela “novidade” que, em uma sociedade de consumidores, foi elevada ao mais alto grau da hierarquia dos valores e considerada como a chave da felicidade. Tendemos a não tolerar a rotina, porque, desde a infância, fomos acostumados a correr atrás de objetos descartáveis, a serem substituídos velozmente. Não conhecemos mais a alegria das coisas duráveis, fruto do esforço e de um trabalho escrupuloso.
Acabamos transformando os sentimentos em mercadorias. Como podemos novamente dar ao outro a sua unicidade?
O mercado farejou na nossa necessidade desesperada de amor a oportunidade de enormes lucros. E nos seduz com a promessa de poder ter tudo sem esforço: satisfação sem trabalho, ganho sem sacrifício, resultados sem esforço, conhecimento sem um processo de aprendizagem. O amor requer tempo e energia. Mas hoje ouvir aqueles que amamos, dedicar o nosso tempo para ajudar o outro nos momentos difíceis, ir ao encontro das suas necessidades e desejos mais do que os nossos tornou-se supérfluo: comprar presentes em uma loja é mais do que suficiente para recompensar a nossa falta de compaixão, amizade, atenção. Mas podemos comprar tudo, menos o amor. Não encontraremos o amor em uma loja. O amor é uma fábrica que trabalha sem descanso, 24 horas por dia e sete dias por semana.
Talvez acumulemos relações para evitar os riscos do amor, como se a “quantidade” nos tornasse imunes à exclusividade dolorosa das relações.
É isso. Quando o que nos circunda se torna incerto, a ilusão de ter muitas “segundas escolhas”, que nos recompensem do sofrimento da precariedade, é convidativa. Mover-se de um lugar ao outro (mais promissor, por ainda não ter sido experimentado) parece mais fácil e atraente do que se comprometer em um longo esforço de reparação das imperfeições da habitação atual, para transformá-la em uma verdadeira casa, e não só em um lugar para viver. O “amor exclusivo” quase nunca é isento de dores e problemas – mas a alegria está no esforço comum para superá-los.
Em um mundo cheio de tentações, podemos resistir? E por quê?
Requer-se uma vontade muito forte para resistir. Emmanuel Lévinas falou da “tentação da tentação”. É o estado do “ser tentado” que, na realidade, desejamos, não o objeto que a tentação promete nos entregar. Desejamos esse estado, porque é uma abertura na rotina No momento em que somos tentados, parece que que somos livres: já estamos olhando para além da rotina, mas ainda não cedemos à tentação, ainda atingimos o ponto de não retorno. Um instante depois, se cedermos, a liberdade desaparece e é substituída por uma nova rotina. A tentação é uma emboscada em que tendemos a cair alegremente e de bom grado.
Mas o senhor escreve: “Ninguém pode experimentar duas vezes o mesmo amor e a mesma morte”. Apaixonamo-nos apenas uma vez na vida?
Não existe uma regra. A questão é que todo amor individual, assim como toda morte, é único. Por essa razão, ninguém pode “aprender a amar”, assim como ninguém pode “aprender a morrer”. Embora muitos de nós sonhemos em fazer isso e não falte quem tente ensinar cobrando por isso.
Em 1968, se dizia: “Queremos tudo e já”. O nosso desejo de satisfação imediata também é filho dessa época?
O ano de 1968 poderia ter sido um ponto de início, mas a nossa dedicação à gratificação instantânea e sem vínculos é o produto do mercado, que soube capitalizar a nossa tendência a viver o presente.
Os “laços humanos” em um mundo que consome tudo são um obstáculo?
Eles foram substituídos pelas “conexões”. Enquanto os laços requerem compromisso, “conectar” e “desconectar” é uma brincadeira de criança. No Facebook, podemos ter centenas de amigos movendo um dedo. Fazer amigos offline é mais complicado. O que se ganha em quantidade se perde em qualidade. O que se ganha em facilidade (confundida com liberdade) se perde em segurança.
O senhor e Janina nunca passaram por uma crise?
Como poderia ser de outra forma? Mas, desde o início, decidimos que estar juntos, embora difícil, é incomparavelmente melhor do que a sua alternativa. Uma vez tomada essa decisão, também se olha para a crise conjugal mais terrível como para um desafio a ser enfrentado. O exato oposto da declaração menos arriscada: “Vivamos juntos e vejamos como vai ser…”. Nesse caso, mesmo uma incompreensão assume a dimensão de uma catástrofe seguida pela tentação de pôr fim à história, abandonar o objeto defeituoso, buscar satisfação em outro lugar.
O amor de vocês foi à primeira vista?
Sim, eu lhe fiz uma proposta de casamento e, nove dias depois do nosso primeiro encontro, ela aceitou. Mas foi necessário muito mais para fazer com que o nosso amor durasse e para fazê-lo crescer por 62 anos.
A reportagem é de Raffaella De Santis, publicada no jornal La Repubblica, 20-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
As fotos são minhas, das ocupações do centro de São Paulo.
65. Quilombo do Remanso, por Márcio Ramos
Quilombo do Remanso, por Márcio Ramos
Depois de perambular pela Chapada Diamantina parei em Lençóis e fui bater na porta do Grãos de Luz e Griô onde conheci Delvan o presidente da associação dos moradores do Quilombo do Remanso. No outro dia – a convite – eu já estava no Quilombo propondo na escola local um trabalho em conjunto.
Cheguei no Quilombo do Remanso e me apresentei a todos com a proposta de além do trabalho com a escola fotografar todos e entrevistar as pessoas os vídeos eu deixei com o Delvan; eu daria uma foto a cada fotografado se bem feita, foi a maneira que eu encontrei de agradecer a chance que me proporcionaram de fazer uma boa foto.
Para isso passei dias no Remanso indo e voltando de Lençóis. A estrada que eu andei de moto começava a 4 km da cidade e está em bom estado o que dificultava era o areão devido a estiagem, desde janeiro não chove. Os mais velhos se lembram de ano que a seca foi pior e os mais novos estão preocupados com as mudanças climáticas alardeados com as noticias quase sempre catastróficas da mídia em geral.

Rita - de grande energia - em sua cozinha na trilha do Roncador onde serve almoço, janta, café da manhã.
Hoje o quilombola já não vive mais da roça, mas do turismo e o discurso preservacionista é acompanhado de hábitos que agregam valores e preços: remar pelo Rio Santo Antonio na região do Marimbus até a cachoeira do Roncador; ouvir mitos, lendas e contos locais dos contadores de historias; apreciar uma cantiga regional acompanhada de uma sanfona pé de bode; curtir uma autentica roda de capoeira no chão batido ao som de atabaques artesanais são valores que não tem preço, mas foram tabelados para enfrentarem os novos tempos. Os turistas pagam para participarem destas e outras atividades em um turismo comunitário.

Dona Inês me deu uma entrevista maravilhosa enquanto lavava as panelas e as crianças se divertiam no rio.
A valorização da cultura e a boa vontade de revitalizar hábitos quase em desuso transformando estes em bens de consumo em forma de produtos e serviços está sendo conduzida com sensibilidade e muita competência pelos quilombolas e a equipe do Grãos de Luz e Griô.
O que era feito em âmbito privado e familiar agora também é exibido para turistas mediante pagamento em um projeto feito em sintonia com a comunidade.

Cosme e Damião é lembrado em casa de Dona Judite; tradição do Jare em ambiente familiar de grande harmonia e paz de espirito.
Encontrei no Remanso pessoas adoráveis e de talentos múltiplos de todas as idades: professores, empreendedores, artistas, curandeiras, músicos, lideres comunitários, contadores de historia e guardador da memória oral, parteiras, esportistas, lavadeiras, bordadeiras, políticos e todos me garantiram que viver de turismo é melhor que viver de roça. A historia de luta destas pessoas é movida por muita fé e muita força, os mais velhos e seus antepassados deram o exemplo e conquistaram a terra, os mais jovens terão que reinventa-la em mais um passo na estrada do tempo.





















