Arquivo para o ‘Habitação’ Categoria
65. Quilombo do Remanso, por Márcio Ramos
Quilombo do Remanso, por Márcio Ramos
Depois de perambular pela Chapada Diamantina parei em Lençóis e fui bater na porta do Grãos de Luz e Griô onde conheci Delvan o presidente da associação dos moradores do Quilombo do Remanso. No outro dia – a convite – eu já estava no Quilombo propondo na escola local um trabalho em conjunto.
Cheguei no Quilombo do Remanso e me apresentei a todos com a proposta de além do trabalho com a escola fotografar todos e entrevistar as pessoas os vídeos eu deixei com o Delvan; eu daria uma foto a cada fotografado se bem feita, foi a maneira que eu encontrei de agradecer a chance que me proporcionaram de fazer uma boa foto.
Para isso passei dias no Remanso indo e voltando de Lençóis. A estrada que eu andei de moto começava a 4 km da cidade e está em bom estado o que dificultava era o areão devido a estiagem, desde janeiro não chove. Os mais velhos se lembram de ano que a seca foi pior e os mais novos estão preocupados com as mudanças climáticas alardeados com as noticias quase sempre catastróficas da mídia em geral.

Rita - de grande energia - em sua cozinha na trilha do Roncador onde serve almoço, janta, café da manhã.
Hoje o quilombola já não vive mais da roça, mas do turismo e o discurso preservacionista é acompanhado de hábitos que agregam valores e preços: remar pelo Rio Santo Antonio na região do Marimbus até a cachoeira do Roncador; ouvir mitos, lendas e contos locais dos contadores de historias; apreciar uma cantiga regional acompanhada de uma sanfona pé de bode; curtir uma autentica roda de capoeira no chão batido ao som de atabaques artesanais são valores que não tem preço, mas foram tabelados para enfrentarem os novos tempos. Os turistas pagam para participarem destas e outras atividades em um turismo comunitário.

Dona Inês me deu uma entrevista maravilhosa enquanto lavava as panelas e as crianças se divertiam no rio.
A valorização da cultura e a boa vontade de revitalizar hábitos quase em desuso transformando estes em bens de consumo em forma de produtos e serviços está sendo conduzida com sensibilidade e muita competência pelos quilombolas e a equipe do Grãos de Luz e Griô.
O que era feito em âmbito privado e familiar agora também é exibido para turistas mediante pagamento em um projeto feito em sintonia com a comunidade.

Cosme e Damião é lembrado em casa de Dona Judite; tradição do Jare em ambiente familiar de grande harmonia e paz de espirito.
Encontrei no Remanso pessoas adoráveis e de talentos múltiplos de todas as idades: professores, empreendedores, artistas, curandeiras, músicos, lideres comunitários, contadores de historia e guardador da memória oral, parteiras, esportistas, lavadeiras, bordadeiras, políticos e todos me garantiram que viver de turismo é melhor que viver de roça. A historia de luta destas pessoas é movida por muita fé e muita força, os mais velhos e seus antepassados deram o exemplo e conquistaram a terra, os mais jovens terão que reinventa-la em mais um passo na estrada do tempo.
2.
Acometido por uma insônia, já havia lido de uma só miragem, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto. Logo no início daquele turbilhão poético me deparei com isso aqui: No princípio / a casa foi sagrada / isto é, habitada / não só por homens e vivos / como também por mortos e deuses (1). Fiquei atônito e fui até a geladeira esperar a ansiedade passar, a tarde iria ao médico e receberia alta de um joelho recém operado. Ainda bem que não foi o pinto, pensei e sorri. Voltei ao quarto, a Bia logo voltaria à Europa para terminar seus estudos e eu precisava aproveitar meus últimos minutos com uma futura arquiteta, que montava e me desmontava a seu bel prazer.
Não muito longe de casa, no centro de São Paulo, centenas de famílias sem moradia começavam a ocupar quatro prédios. Famílias inteiras: homens, mulheres e crianças, idosos, alguns doentes, gestantes e inválidos ocuparam em menos de quatro minutos prédios desocupados há anos, que não cumprem com sua função social. “Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras. Mas só há duas nações – a dos vivos e a dos mortos”. (2).
A luta por moradia digna estava apenas começando.
(1) Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto, Ed. Companhia da Letras, pg. 9, citação de Sophia de Mello Breyner.
(2) Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto, pg. 13, citação de Juca Sabão.







