55. Alma Cabocla

Alma Cabocla é o nome deste ensaio sugerido por um grupo de oitenta pessoas que estavam fazendo uma oficina de Literatura e Arte em Parintins no qual eu fui convidado para mostrar o meu trabalho, aqui é só uma parte deste trabalho, que além de foto, tem vídeo, murais e instalações.

Todas as pessoas aqui retratadas eu conheci pessoalmente e algumas eu gravei depoimentos para edição de futuro vídeo. Pretendo terminar este trabalho em três anos ou mais (vai saber???)… o norte é muito bom, as crianças são educadas, o povo é festeiro e hospitaleiro e as caboclas são lindas e eu tenho que dizer.

Me identifico muito com o modo de vida dos ribeirinhos, das comunidades que vivem da pesca, da coleta de alimentos da mata, longe de grandes centros urbanos. Uma vida mais simples mas que não devemos idealizar como sendo um mar de rosas. O caboclo vive longe de escolas, hospitais, e é excluído pelo poder público desde sempre, se bem que a partir do governo Lula muito mudou na região; muitas vezes se depara com injustiças e precisa enfrentar capangas de grileiros; a mafia do trabalho escravo e das madeireiras invadem as terras dos caboclos onde estes acabam procurando emprego; o garimpo e as mineradoras sem responsabilidades sociais sugam as riquezas de nosso País de forma indiscriminada ainda hoje e o caboclo sente na alma e no corpo; muitos políticos e uma parte da Igreja corrupta se perpetuam no poder e mandam e desmandam de forma criminosa, mantendo o caboclo pobre e isolado porque acreditam que assim é melhor, pensamento compartilhado por muitas ONGs e principalmente das potências econômicas cujos interesses não são do interesse do povo mais humilda; e ainda temos a demarcação de terras indígenas, que sem fiscalização e regularização inteligente viram terra de gringos o que muitas vezes prejudica o convívio harmônico entre as populações ribeirinhas e fazem com que os indígenas se tornem da noite para o dia em capitalistas selvagens – e o trocadilho aqui é válido.

O povo caboclo é forte, valente e destemido; hospitaleiro, alegre e compenetrado e batalha muito pela sobrevivência. Geralmente chego nas comunidades mais distantes sozinho, outras vezes acompanho projetos de universidades e instituições que entendo serem idôneas. Muitas destas fotos eu fiz nas comunidades de Juruti Velho no Pará e Parintins no Amazonas acompanhando o Projeto Pé de Pincha (Universidade Federal do Amazonas), que lida junto as comunidades ribeirinhas com a coleta de ovos dos quelônios para repovoação de áreas degradadas. Muitas destas áreas hoje ja foram recuperadas e o esforço agora é permitir que as populações possam comercializar o excedente. Pretendo ajudar com o meu trabalho nesta luta, e o video eu edito até o fim do ano.

Muitos pesquisadores que encontrei – na verdade quase todos – nasceram na região e foram os primeiros de suas famílias a entrar em uma faculdade. Pessoas fantásticas, capacitadas e com uma consciência politica incrível. Batalham não só pela sua ascensão social mas pelo bem comum das comunidades, um verdadeiro trabalho comunitário onde aqueles que puderam estudar sabem que teem muito que aprender com o povo caboclo.

O futuro da região amazônica está nas mãos destas pessoas, só o caboclo tem condições de defender as nossas reservas minerais, naturais e “culturais”, por isso o caboclo tem que ter acesso a estudo, energia, tecnologia, assistência médica e social de qualidade. A Europa sempre quis parte da Amazônia, os EUA também e agora o mundo todo se volta as imensas riquezas da região. Ou o Brasil arma o caboclo com ciência e tecnologia, valorizando a sua cultura e seu conhecimento ou vamos pagar caro no futuro.

Lutar por uma maior integração da região norte com o resto do País é uma das saídas para que – principalmente – a região sul e sudeste não seja manipulada pelas ONGs gringas, uma mídia irresponsável com seus fotógrafos e jornalistas igualmente irresponsáveis, acadêmicos de escritório que nunca viveram na região e políticos de gabinete que nem vivem muito menos convivem com o povo ribeirinho e ainda querem emitir opiniões, na maioria das vezes idealizadas sem respaldo na prática ou convivência diária.

Busco com este trabalho não só ajudar nas lutas sociais, mas tambem resgatar minhas raízes indígenas e negras, a minha vontade incessante de conhecimento do Outro e do Mundo.

Agradeço a todos os retratados que me receberam com muita hospitalidade, com carinho e dignidade e que tanto me ensinaram.

Márcio Ramos

One Response to “55. Alma Cabocla”

  • feppa disse:

    Marcio, que saudades.
    Que bom ver os resultados tão belos do seu trabalho, de sua incessante vontade de conhecer mais e mais este nosso mundo.

    Um grande abraço, e que continue os cliques para agradar nosso olhos!

Leave a Reply