Archive for dezembro, 2010
Preste atenção, chega mais.
isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
6. A joia é rara. A pérola é negra.
Mara Lucia é joia rara, destas que não se encontram tão fácil. Morou na rua, criou os filhos e adotou outros tantos. Enfrenta o descaso do poder público, o preconceito e o racismo de uma sociedade hipócrita e injusta. Tinha tudo para se sentir perdedora, para negar a VIDA, para se desiludir. Por alguma razão que eu desconheço, Mara Lucia afirma a VIDA, enfrenta um sistema excludente incluindo corpo e espírito na pauta de todo o dia, segue em frente, luta com ternura sem se deixar enganar. Nos ensina todo dia que temos muito a aprender.
Sorte a minha, de poder estar junto. Aprendendo.
O capeta veste saia.
A sonzera do bando da banda Capeta veste saia capricha nas letras para resumir toda a fúria contida das meninasmulheresmalditas do centro de São Paulo. As líderes do MSTC destilam palavras certeiras, indignadas e fortes que reverberam na alma das paredes de ferro e concreto desta cidade cinzeiro. O corpo, que é tudo o que temos, sem a arte tranca e trinca. Ser inteiro mesmo que passageiro.
Reciclando a vida: transformando o futuro.
Pedi para publicar foto da Laíssa e texto da Joelma, elas deixaram…

Laíssa voluntária da ONG UTPMP fazendo casas de emergência enquanto sofre ação de despejo de sua própria casa.
Oiiiiiiiiiii Mah fique avontade para mandar texto pra onde quizer,
em falar nisso, quero te agradecer por que vc fez
um papel importantíssimo na minha vida
e faz cada dia mais, estou aqui pra quando você precisar…
Beijinho da preta
Lala
Por: Joelma do Couto.
Sexta-feira, 12 de novembro de 2010.
Laíssa Sobral Martins matricula-se no curso de gestão ambiental de uma universidade privada. Mais tarde voltaremos ao tema.
Esta história poderia começar de muitas maneiras, mas resolvi começar pela mãe, afinal, a mãe é o principio, é onde todos começam.
A mãe de nossa personagem, Laíssa, chama-se Mara Lúcia Sobral Santos. Baiana, vive desde muito pequena em São Paulo. Mara Lúcia, aos nove anos, perdeu a mãe. Se com a mãe a vida já não era fácil, sem ela, o que dizer. Mara Lúcia e suas três irmãs foram parar em um abrigo para menores. De lá, ela fugiu, negou-se a aceitar os maus tratos. Foi para as ruas e, lá, aprendeu com a vida a se virar. As ruas do centro da cidade foram sua escola, sua vida, seu diploma e seu carrasco. Mas Mara Lúcia preferia assim, era um preço alto pela liberdade, porém, era a liberdade.
Nas idas e vindas da vida, Mara Lúcia conheceu homens e mulheres, teve amantes, amados e odiados. Teve dois filhos, Laíssa e Everton. Com duas crianças nos braços, teve que deixar as ruas, precisava um porto seguro. Voltou às raízes, foi para a região do Grajaú, mais exatamente para a Vila Rubi, onde cresceu. Ocupou um barraco, sem telhado, cobriu com uma lona. Lá nasceu a bela Rafaela.
Para criar os filhos, trabalhou como doméstica, vendeu balas nos pontos de ônibus, fez de tudo um pouco.
A pequena Laíssa aos poucos viu seu pequeno barraco se encher de caras novas, a mãe, coração mole, foi abrindo a casa para outras crianças e adolescentes vítimas de violência e de abandono. Vieram os gêmeos, um morreu. A Joana com seus dois filhos. Enfim,nove irmãos adotivos, todos dentro de um barraco de quatro cômodos em cima de um córrego.Mas felizes e protegidos.
Aqui a história da Laíssa começa a mudar. Um dia, sua mãe fica sabendo que no bairro da Granja Julieta, zona sul de São Paulo havia sido criada uma cooperativa de catadores, era a gestão de Marta Suplicy.
Mara Lúcia então começa a trabalhar na cooperativa, juntamente com sua filha adotiva, Joana. Laíssa e o irmão, Everton, ficam em casa com os irmãos menores. Não sobra muito tempo para os estudos. Também não há uma preocupação, digamos que os estudos não são prioridade. Na favela, lugar por muitos chamados de senzala moderna, poucas pessoas sonham em ir para a universidade. Em meio a enchentes, incêndios, ratos, tráfico de drogas, violência policial, pagar o aluguel, comer, garantir creches para os filhos etc., etc…. Universidade é o de menos, se completar o ensino fundamental já “tá no lucro”. Para Everton, irmão de Laíssa, “A Universidade é algo muito distante de nós, muito longe de mim”.
Da cooperativa de reciclagem, sua mãe tira tudo que precisam pra a sobrevivência, bolsas, móveis, brinquedos, o salário que no fim do mês alimentará a todos. A vida não é fácil, mas, para Mara Lúcia é mais difícil. Trabalhar numa cooperativa de catadores não é trabalho fácil. Na cidade de São Paulo, não existe uma política pública que incentive e apoie a catação. Existe um decreto do prefeito Gilberto Kassab, que não é devidamente aplicado.
Para uma mulher com 12 filhos, sem marido, o que sobra da sociedade é ouro. Laíssa sente no dia a dia a dor da mãe que se esforça para mantê-los longe das drogas, da prostituição. Mara Lúcia luta, luta para conseguir dar a seus filhos o lar que não teve. Laíssa comenta, “Lembro bem de uma aula de história em que meu professor contava a história da feijoada: a princípio era alimento dos negros escravos, feito com os restos que o senhor da casa-grande não comia. Depois, os brancos ricos descobriram o valor da feijoada e se apossaram dela. Hoje vejo mesmo acontecer com o lixo que nossas famílias coleta e vendem para a reciclagem a mais de 60 anos. Os ricos descobriram o valor da reciclagem e querem mais uma vez nos passar a perna”.
Como já disse, nada na vida de Mara Lúcia e seus filhos é fácil. Numa noite, meados de dezembro, mais precisamente dia 9 dezembro de 2008, alguém passa pela Avenida Alceu Mainardi de Araújo e atira fogo na cooperativa. Rapidamente o fogo que em contato com muito papelão, se espalha e destrói os sonhos, sonhados ou não de cerca de 80 trabalhadores que daquele espaço retiravam seu sustento.
Neste momento a vida de Laíssa se transforma totalmente. Sua mãe por não concordar com as atitudes que considera desumanas, por parte da presidente da cooperativa, Marcia Abadia, está trabalhando em outra cooperativa, mas ao ser chamada pelos antigos colegas de trabalho para somar na luta pela reabertura da cooperativa, joga tudo pelos ares, e vai, insanamente, lutar contra a Prefeitura da cidade de São Paulo e todos aqueles que não querem a cooperativa no local por questões imobiliárias ou por questões econômicas. O mercado da reciclagem é um mercado bilionário.
Durante o ano de 2009, Laíssa viu faltar sabonete, tomou banho gelado no rigoroso inverno, faltou leite para os pequenos, faltou animo para estudar. Laíssa que estava no terceiro ano do ensino médio, repetiu. No entanto, naquela altura do campeonato, o que significava perder o ano para quem não tinha o que colocar na mesa?
Mara Lúcia enfrentou a revolta dos filhos que não entediam porque ela deixou um emprego certo para lutar por uma causa que nem era sua, era do pessoal da Granja. Na comunidade Mara e seus filhos eram motivo de chacota, até mesmo na escola, os chamados Lixeiros, eram humilhados.
Sem apoio das outras cooperativas que morriam de medo da Prefeitura, Mara Lúcia encontrou apoio no Movimento Nacional do Povo da Rua. Lá a vida de Laíssa começou a mudar. O movimento do povo da rua é organizado. Por ironia, foi com o povo da rua que Laíssa começou a entender que tinha que voltar a estudar. Aprendeu o valor da Educação. Uma vez por mês o povo da rua se reúne para, no “Fala Rua”, discutir, debater, criar politicas púbicas capazes de diminuir a exclusão social. Com o povo da rua, Laíssa conheceu a Rede Rua de Comunicação, a Revista OCAS, e muitas, muitas pessoas sérias comprometidas com a construção de um país mais justo para todos. A família de Mara Lúcia, liderada por Laíssa, cria uma banda, a banda da cooperativa Granja Julieta. A banda toca em dezembro de 2009 (um ano após o incêndio) para o Presidente Lula. No Natal Solidário toca para pessoas em situação de Rua na Praça da Sé, centro de São Paulo. Laíssa começa a viajar, participar de seminários de formação, de palestras, sua mente se abre para um mundo que até então ela não conhecia.
Comovido com a luta de Mara Lúcia e seus companheiros catadores, o Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, telefona para o então Prefeito da Cidade de São Paulo Gilberto Kassab e pede que este reabra a cooperativa. No dia 27 de dezembro de 2009, um domingo, a pedido o Presidente da República o Prefeito visita o espaço onde funcionará a cooperativa de catadores da Granja Julieta.
Algo que parecia impossível aconteceu, a cooperativa da Granja Julieta reabriu. Devido a muitas brigas, empurra-empurra, a cooperativa passa a funcionar na Rua Carmo do Rio Verde próxima ao antigo espaço à Avenida Alceu Maynard de Araújo. Sem estrutura, o trabalho na cooperativa não é fácil, porém necessário. Laíssa começa a trabalhar com sua mãe. O Trabalho duro e braçal. Eles não têm empilhadeiras, esteiras, caminhões, a estrutura básica para um trabalho digno. Apesar de o governo federal ter disponibilizado seis milhões de reais há três anos, para a Prefeitura investir em suas centrais de triagem, o dinheiro continua na Caixa Econômica, sem uso.
Na casa de Laíssa uma mudança: Joana passa a ficar em casa para cuidar das crianças e, Laíssa e Everton, já maiores de idade, vão trabalhar com a mãe. Laíssa dorme na cooperativa. Transferiu-se para uma classe de EJA (Educação de Jovens e Adultos), na Escola Estadual Plínio Negrão, próxima a cooperativa. Para Laíssa a mudança não foi tão simples como se parece, sua mãe não queria permitir que ela dormisse na cooperativa; “Se ela ficar aqui dentro, comer, trabalhar, dormir, fizer da cooperativa seu lar, estará imersa no lixo e isso não é bom”, afirmava Mara Lúcia. Mas, Laíssa insistiu, trabalhar o dia todo, estudar a noite e voltar para casa seria muito cansativo, “se eu dormir aqui, (na cooperativa) ganharei umas horas a mais de sono e de estudo”.
Durante o ano de 2010, Laíssa fez cursos de formação ministrados por ONGs, pelos movimentos sociais e conheceu o Teto. A ONG “Um Teto para meu país”, criada, no Chile, em 1997, pelo Padre Felipe Berríos. O Teto como é chamada carinhosamente pelos universitários busca construir casas de madeira pré-fabricadas, para famílias em situação de risco. Num primeiro momento integrante da ONG procuram o poder público local e a comunidade para negociar e expor suas propostas. Em um segundo estágio constroem as casas. A construção é feita por universitários em férias. A ONG que chegou ao Brasil em 2002,construindo 20 casas no estado de Pernambuco. Laíssa e seu irmão Everton, em julho de 2010, ajudaram a construir cerca de 50 casas na Favela da Padroeira, em Osasco. Desta parceria, brotou em Laíssa e Everton o desejo maior de serem universitários. Da experiência nasceram belas amizades entre estudantes de classe média alta e adolescente favelados, que nunca haviam pensado na possibilidade de frequentar uma universidade ou fazer um intercambio. Mas Laíssa não se sentia verdadeiramente do Teto, não é universitária. A experiência foi frutífera, porem dolorida. Laíssa se lembrou dos tempos em que sua mãe mal tinha o que colocar na mesa para eles comerem e ainda tinha que se concentrar e continuar lutando, pois a cooperativa estava reaberta, o trabalho garantido, apesar da falta de estrutura. Só que a Prefeitura está realizando uma obra de canalização de córrego bem no córrego da Vila Rubi, Laíssa, sua mãe e seus irmãos deverão deixar o lar que conhecem para um local sabe se lá onde. A preocupação é imensa, mal acabaram de sair de uma luta e já estão em outra. Para Mara Lúcia, “nós pobres somos como ping-pong nas mãos dos ricos: se estamos aqui nos jogam lá, se estamos lá nos jogam acolá”. Depois de muita negociação e do apoio do Senador Eduardo Suplicy a Secretaria de Habitação da Prefeitura de São Paulo resolveu pagar 3 aluguéis para Mara Lúcia, afinal naquele lar em cima do córrego moram 12 pessoas mais aí começa outro problema, agora eles tem o dinheiro para alugar uma casa descente para todos até que saia o apartamento prometido pela Prefeitura, mas quem será o fiador? Uma solução seria pagar o seguro fiança, 2500,00 reais por ano. A família não tem dinheiro para mais este gasto. Mais uma vez Laíssa volta no tempo e fala da Lei de terras de 1850. “A lei de terras de 1850 deixou os negros de fora, transformou a terra em algo lucrativo, era um bem que só quem tinha dinheiro podia comprar. Para negros foros era apenas uma ilusão”. Mara Lúcia complementa a fala: “Era melhor quando éramos escravos, nessa época sabíamos que nosso lugar era a senzala, e agora qual é o nosso lugar? Me diga um lugar nesta cidade onde os pobres não estejam sendo expulsos”.
O medo é constante, a incerteza uma companheira de horas eternas. Só que neste momento o coração de Laíssa tem mais um motivo para sangrar. Ela quer estudar. Quer sair da favela, quer uma segurança, segurança esta que ela tem certeza só encontrará estudando muito.
Concentrar-se numa escola depois de um dia de trabalho na reciclagem não é fácil. Na cooperativa da Granja Julieta o trabalho é duro, eles precisam conviver com pessoas com sérios problemas mentais, dependentes químicos, deficientes físicos, trabalhar no sol e na chuva, no fim do dia o corpo e a mente estão “acabados”. Para piorar, Laíssa estuda em uma sala com mais de 60 alunos. A sala é pequena para tanta gente, quem chega atrasado tem que ir buscar carteiras em outras salas, atrapalhando assim a aula já em andamento. O calor é intenso mesmo no inverno. Laíssa, que tem bronquite, sofre com crises de falta de ar. “Noutro dia – conta Laíssa – uma colega de sala teve um ataque de nervos. Depois que a acalmamos ficamos sabendo o motivo: ela é deficiente auditiva e não conseguia entender o que a professora explicava”.
Houve um movimento na escola para dividir a sala, mas disseram que não havia motivo para tanto, que em pouco tempo muitos alunos deixariam de frequentar o curso e a sala ficaria mais“vazia”.
Às vezes Laíssa chora, sente além das dificuldades o preconceito, daqueles que a veem como lixeira e não como agente ambiental. Noutro dia no banheiro do colégio ouviu algumas colegas “tirarem um sarro” de sua profissão, falavam com desprezo e descaso. Também diziam que era mentira que ela fazia parte dos movimentos todos que ela contava na sala de aula. A forma pejorativa a que se referiam a ela e seus colegas de trabalho doeram fundo, a fez inclusive pensar em deixar a escola. Na cooperativa a história acabou virando piada, pois catadores de origem mais humilde queriam ir até a escola tirar satisfação com as meninas que tinham magoado a Lalá. Um deles queria ir até a polícia, pois “brulim” é crime. Como na cooperativa da Granja tudo é motivo para festa, o “brulim” da Lalá virou mais um motivo para o riso.
Apesar das dificuldades Laíssa não se queixa dos professores, tem carinho e respeito por todos. Aprendeu desde cedo que a vida não é fácil, mas que não existe outra forma de enfrentá-la que não seja de frente.
Lembram-se da frase inicial “Sexta-feira, 12 de novembro de 2010. Laíssa Sobral Martins matricula-se no curso de gestão ambiental de uma universidade privada”, a guerreira Laíssa, está na universidade. Mais uma menina negra, favelada, sofrida, adentra pelos portões das universidades brasileiras. Dentre em pouco ela deixará ser uma catadora e será uma gestora ambiental.
Laíssa entra para as estatísticas que mostram que em sete anos mais jovens negros e pardos entraram para a universidade do que nos últimos 500 anos. Em 2004 quando o governo Lula implantou o sistema de cotas na Universidade de Brasília (UnB) apenas 2% dos estudantes universitários brasileiros eram negros, apesar de a população negra representar mais de 46% da população brasileira. Atualmente quase um milhão de estudantes negros estão em cursos superiores.
Mas, como a vida não é fácil, ela tem medo muito medo do preconceito que encontrará na universidade, pois diferentemente dos outros alunos o pagamento de sua mensalidade sairá de seu trabalho na cooperativa. Trabalho este que, muitos brasileiros ainda não conhecem e não entendem o valor.
Na sexta-feira, 12 de novembro de 2010, lembrei-me de um encontro do Presidente Lula com os catadores, no qual ele disse que sonhava em ver não só os filhos dos catadores na universidade, como também os catadores.
Laíssa é o primeiro diploma da família. Mara e suas irmãs não completaram nem o fundamental. Agora, Laíssa, catadora e filha de catadora é universitária.
Que venham muitas Laíssas.
Foto na Favela
Alguns dias passados recebi emeio do Feppa, fotógrafo, desenhista, artista e voluntário da ONG UTPMP, para que a gente fizesse uma exposição de fotografia na favela da Padroeira, em Osasco. Não esperava pelo convite, fiquei envaidecido, mas chegou em hora boa, eu estava com saudades da turma da UTPMP e pela favela da Padroeira tenho um carinho especial. Coisas que a gente não explica.
Sorte eu ter 179 fotografias ampliadas, das 750 que já editei. Separei trinta com a ajuda da amiga Joana que cuida da Comunicação da ONG e lá fui eu as nove da manhã de domingo com uns 25 voluntários para a favela. Os voluntários foram visitar as famílias que irão receber as casas de emergência no próximo fim de semana, aproveitaram para acertar os últimos detalhes da construção e estreitar os laços entre voluntariado e as famílias que vivem em barracos precários na favela. Quem ganha de um a três salários mínimos vive em extrema pobreza. Se pagar aluguel não come se comer não paga aluguel. São pessoas que trabalham duro, mas devido ao alto valor do aluguel – isto se chama especulação imobiliária – e ao baixo salário – arrocho salarial que sofre principalmente o trabalhador de baixa renda - não conseguem moradia própria para viver e criar seus filhos. É triste esta situação, muitos se acham culpados por não conseguirem pagar o aluguel, enquanto a verdade é que a culpa é de uma política econômica criminosa, para dizer o mínimo.
A maioria dos voluntários são estudantes universitários – USP, PUC, Mackenzie…- e muitos nunca haviam entrado em uma favela. E aqui a ONG cumpre com sua proposta, ser a ponte que liga a classe media alta às favelas de São Paulo. Acreditam que para combater a pobreza é fundamental conhecê-la de perto; estreitar os laços afetivos entre classes sociais diferentes derrubando assim os muros dos preconceitos sociais históricos.
Muitos dos voluntários já me confessaram que tiveram dificuldades em trabalhar na ONG devido a negativa de seus pais. De forma positiva são pessoas que acreditam que é possível fazer justiça social, e assim, sem medo de serem originais se recusam a ser cópias e caminham com muita criatividade inventando suas biografias, superando os obstáculos que se impõem.
Ao chegar a favela os grupos se dividem de forma organizada e eu e o Feppa vamos até a Associação do Moradores montar a exposição. Eu com as fotos coloridas e o Feppa com as fotos preto e branco. Enquanto montávamos a exposição as crianças circulavam animando o ambiente, a Bia viajava nas estórias, a Shirley olhava tudo com muita atenção, o Feppa no maior cuidado colava as fotos na geladeira, ao lado do fogão, nas paredes, e logo a sala se encheu de gente e foto. Eu ajudei um pouquinho, mas não agüentei e sai fotografando, só pra variar. Adoro uma bagunça, acho que é porque em casa sou muito organizado, deve ser…
Muito legal as crianças analisando as fotos. Uma criança disse que não gostava do P&B, deu dó do Feppa… bem, mas logo veio outra e disse que adorou o P&B, melhor assim. Um garoto viu uma foto P&B com desfoque no fundo e falou que era igual de novela, olha só! O Feppa ficou puto da vida. Normal, eu também ficaria… rsrs. Ri muito.
Depois saímos para rodar a favela e avisar os moradores da exposição. Visitamos alguns manos e manas das últimas construções e fomos até a família que o Feppa irá construir sua próxima casa na Padroeira. Encontramos outros voluntários batemos um papo com a família e voltamos. Mas antes demos um cansaço na galera que ia nos dar carona de volta, pois tínhamos combinado de fotografar uma criança com o vestido de noiva, a mãe teria que devolver o vestido no outro dia e não podíamos negar o pedido. Afinal de contas estávamos lá para isso certo?
Fizemos as fotos e deu tudo certo. Foi bem legal.
Ah dedico as fotos deste dia para a Priscila, que adorou o meu trabalho com muita sinceridade. Difícil de esquecer.
E agradecimentos ao Feppa, a todos da favela da Padroeira e a ONG UTPMP que me enchem de alegria.
Acorda meu povo!

Angela conseguiu emprego, foi registrada e agora - 3 de dezembro de 2010 - está na calçada em frente a Câmara Municipal exigindo credito para sua casa própria. Direito inalienável que a Constituição lhe assegura.
Acordar não é de dentro / Acordar é ter saída
João Cabral de Melo Neto
Acordei. Tomei café. Assim: vitamina com leite, banana, maçã. Pãozinho com queijo e dá-lhe uma manga para reforçar. Preciso me cuidar, depois de vinte dias de antibiótico para curar uma droga de uma sinusite devido ao cansaço e a friagem que peguei nas ocupações do centro. Mas nada que um bom médico não cure. Já estou bem.
Pensei em pegar um táxi até o metrô Vila Madalena, para poupar meu recente joelho operado, mas como já estou me sentindo melhor e estava cedo saí andando. Subi o morro, asfaltado. Peguei o circular Praça Ramos e desci na Av. São João. Andei algumas quadras, passei em frente ao número 588 da São João onde centenas de pessoas ocupam prédio abandonado, pois não tem onde morar e fui ate a Av. Ipiranga 925, outro prédio ocupado por 1200 pessoas, vindas do Alto Alegre, Zona Leste, de onde foram despejadas, pois estavam em terreno irregular. Seus barracos foram destruídos e queimados pela Policia Militar por ordem do estado que deveria zelar por suas vidas, suas moradias, suas crianças.
Chegando lá me receberam com sorriso no rosto, como é comum desde o dia 10 de outubro quando por lá aportei pela primeira vez. Fiquei sabendo das ocupações no dia 4 de outubro, mas foi só dia 10 que consegui largar a muleta e correr para ver como estava o “meu povo”. É assim que carinhosamente meu avô Bernardo falava do “povão” e é assim também que a Ritinha se dirige a todos as 4:30 horas da madruga para acordar os voluntários que todo dia saem rumo ao Mercado Municipal, ali no centro de São Paulo para pegar comida, aquela comida que jogam fora, mas que ainda esta boa para comer, mas esta ruim para vender. Sabe como é: “farinha poca meu pirão primeiro, bocado grande pra acabar ligeiro”, porque “saco vazio não para em pé” e todo mundo precisa comer pra viver, já que a religião só garante o Paraíso após a morte. E a gente sabe, no Paraíso ninguém come, lá não tem fome, tampouco tem prazer…
Depois dos cumprimentos iniciais na entrada, fui até o escritório, só achei a Claudia. A Claudia é uma voluntaria do “movimento”, é assim que carinhosamente todos chamam a “organização política” que luta por moradia digna. Existem vários núcleos organizados de pessoas que perderam seus barracos por ordem de despejos nas periferias, pois assentaram seus barracos em propriedades alheias. A Claudia tem casa, eu também, mas somos dos poucos ali que não estão em “situação de rua” e somos voluntários. Bem, conversei com a Claudia e ela me disse que está cansada, estressada e precisa parar um pouco, me disse que está doente há umas duas semanas. Eu disse que fiquei doente também, mas que eu já estava melhorando e aconselhei a Claudia a ir pra casa por uns dias, pois ela é pessoa importante para a organização do “movimento”. Conversamos um pouco e fui andar pelo prédio pensando que ali estava todo mundo doente. O estresse é grande, porque ninguém sabe que dia todos serão novamente despejados, as famílias em situação de rua ganham em sua maioria um salário mínimo e poucos chegam a dois salários e meio, ou seja, se pagar aluguel não come, se comer não paga aluguel e a reinvidicação é por créditos justos para quem ganha até três salários, para poderem pagar por sua casa própria. Fora toda esta pressão na vida destas pessoas, os hospitais públicos eu nem preciso dizer aqui que não prestam pra nada, que o remédio é caríssimo, que as crianças não tem saúde, a alimentação é inadequada, que os pais fazem bicos ou trabalham longe… quanta miséria!!!!
Fui andar pelo prédio, conversei com algumas pessoas, até que a Angela me chamou. Ela veio agradecer as fotos que eu deixei pra ela “de presente”, coisa que faço em todo lugar que fotografo, pois sempre volto com as fotos para as famílias. Eu disse a ela que não era um “presente” é que toda foto é feita de uma relação entre fotografo e fotografado e ela fazia parte desta relação então ela tem direito a foto, mesmo assim a Angela agradeceu umas mil vezes. Conversamos um pouco e a Angela me pediu, meio sem jeito, que eu fizesse entrevistas com as pessoas, e perguntasse a elas como elas se sentiam por dentro, porque isso ninguém nunca pergunta e ela já havia me visto com esta preocupação. Eu falei, bem Angela então vamos começar com você, como você se sente? Quer falar? E acionei a minha câmera e passei a filmá-la. A Angela me disse que se sentia péssima, cansada, triste. Estava a mais de um mês em uma “ocupação”, ou seja, em um prédio que estava abandonado há anos, que virara lixão e que 1200 pessoas entraram na madrugada do dia 4 de outubro, fizeram um mutirão, colocaram luz nas escadas, limparam o prédio todo, sem elevador é claro, e que agora seriam despejados de novo. Seus três filhos e todas as suas coisas estavam na casa de sua mãe, um barraco nos confins da Zona Leste. Ela so via os filhos no fim de semana, embora já estivesse trabalhando de faxineira ali perto se sentia muito sozinha e desamparada. Angela falava e chorava, chorava e falava. Isso foi hoje, umas onze horas da manhã. Filmei tudo e claro chorei junto. No fim Angela me disse que mesmo assim não desistiria, porque foi a primeira vez na vida que tinha esperanças de conseguir uma casinha própria, honestamente e que nunca haviam lutado por ela. Angela mesmo assim se sentia amparada pelo “movimento” do qual eu, a Claudia, a Ritinha, e muitos outros de alguma forma fazem parte, mais os grupos de teatro de rua que aparecem, músicos, artistas, estudantes e o pessoal da mídia independente.
Depois da conversa/entrevista que tive com a minha amiga Angela desci até a calçada da Ipiranga pois já sabendo que todos podem ser removidos mais uma vez o “movimento” resolveu fazer uma passeata que se iniciou ao meio dia de hoje. Com muita animação e esperança mais de mil pessoas de diversas ocupações foram ate a Câmara de São Paulo para protocolar uma carta de intenções. Acompanhei todo o processo e posso dizer que fomos desprezados literalmente por uma comissão dos direitos humanos e pelo Presidente da Casa que se reunia no salão do sub solo da Câmara de São Paulo, os distintos políticos estavam discutindo o tema Xenofobia para eles mesmo, já que na platéia tinha umas 10 pessoas, alguns dormindo. Ficamos ali uns 20 minutos ou mais, sei la, e o cara que estava falando não falava nada com nada, ou se falava não sei o que dizia, e olha que eu não sou tão besta assim, já participei de muita aula – tenho uma dezena de graduações na USP como aluno ouvinte porque gosto de estudar – e bem… deixa pra la, vou pular esta parte pra não baixar o nível…
Depois saímos, pois tínhamos mais de mil pessoas na passeata, muitas crianças e mulheres, gente idosa e muita gente doente. Vocês imaginam o que é viver sem casa, sem hospital, sem amparo, sem nada! É muito triste, muito triste. Bem, foi frustrante na Câmara. Depois fomos até o Ministério Público de São Paulo onde foi dado entrada no processo com a promessa do Promotor de Justiça de Direitos Humanos de São Paulo José Paulo França Piva de analisar o processo e convocar dirigentes e autoridades para uma audiência. O “movimento” solicitou que o MP ofereça denúncia ao estado e município sobre os imóveis abandonados e providências para atender as famílias de baixa renda. Já eram umas 16 horas da tarde e todos se dispersaram e eu estava morrendo de fome.
Fui até a Av. Paulista parei em um lugar que conheço e comi muito, paguei a conta e voltei pra casa. Cheguei em casa, tomei um super banho, coloquei um som e fui baixar as fotos no computador e dormir um pouco. Acordei e escrevi este texto.
Esta será mais uma noite que choro sozinho por eu não poder dividir o que tenho – comida, casa, saúde, estudo – com toda aquela gente que nada tem.
Choro também pela miséria humana, daqueles políticos canalhas que não cumprem com suas obrigações e ainda tiram uma com sua cara.
Choro também por aquelas pessoas que a única coisa que fizeram na vida de errado foi nascer num País de merda, pobres, sem amparo, sem chance, sem teto, sem nada, mas que ainda me recebem super bem toda vez que vou levar minhas fotos, brincar com as crianças que eu adoro, e tão pouco posso fazer por elas.
Dificil é ter que acordar no outro dia e ver o que a mídia podre vai falar a respeito da passeata, já que seus funcionários – fotógrafos e jornalistas – só aparecem para cumprir com seus horários de trabalho porque eu nunca vi um deles pedir licença, conversar com as pessoas, se preocupar com elas…
Desculpe a baixaria no final do texto é que todo dia eu levanto e fico mais indignado, meu destino é ser um eterno revoltado e nem por isso vou deixar de afirmar a vida, todo dia, todo dia.
Acorda meu povo!!!
















