Archive for janeiro, 2011

16.

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

8 de março no carnaval mobiliza feministas

instar

Por Terezinha Vicente, 22 de janeiro, 2011.

O ano recém findo trouxe uma grande vitória para as mulheres, sobretudo no campo do simbólico, com a eleição de uma presidenta pela primeira vez no Brasil, entre uma dúzia existente no mundo. Mas a campanha eleitoral antecipou também os grandes desafios para o movimento feminista nesta terra em que o Estado ainda se mistura com a Igreja. A começar pela desqualificação permanente da candidata mulher, inclusive por parte do candidato homem e sua família, aliados da grande mídia que passou por momentos ridículos ao tomar partido do enfim derrotado.

Enquanto em Portugal três anos de aborto legalizado comprovam que o número de cirurgias não aumentou, e foi zerado o número de mortes por aborto, no Brasil o debate só é mostrado em grande escala quando convocado pelos fundamentalistas, como foi na campanha. O ano já começou com ações pró vida desencadeadas por padres e bispos do interior de São Paulo, juízes do STF abrandando as punições da Lei Maria da Penha oficialmente, sustentando práticas contra a lei, defendidas pela maioria dos operadores do direito, enquanto casos de violência contra a mulher ilustram noticiários e circulam por redes feministas. Basta dizer que o CIM (Centro Informação Mulher), onde tradicionalmente se realizam as reuniões gerais do movimento de mulheres, acaba de ser desalojado pela Prefeitura, que não respeita o maior arquivo feminista de que temos conhecimento.

Não basta ser mulher

Representando organizações importantes no movimento de mulheres, como a Marcha Mundial de Mulheres (MMM), CIM (Centro Informação Mulher), União Brasileira de Mulheres (UBM), União de Mulheres, Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), Coletivo Dandara, Promotoras Legais Populares, bem como movimentos sociais – MST, MAB, CUT, Conlutas, Unegro, UMM, USP, PUC – e partidos políticos – PT, PSol, PCB, PSTU, PC do B, mais de 50 mulheres fizeram a primeira reunião para organizar o 8 de março deste ano, que cai justamente na terça-feira de Carnaval. Legalização do aborto, mulheres na política e no poder, a imagem da mulher na mídia e no carnaval, mercantilização da moradia, educação, saúde, a necessidade gritante de creches e a violência contra a mulher, assuntos permanentes e urgentes na vida das mulheres brasileiras, continuam em pauta pela autonomia feminina, pela voz de todas.

Temos uma presidenta mulher, mas isso não significou aumento no número de parlamentares eleitas, local ou nacionalmente. O Brasil continua numa posição vergonhosa no tocante a mulheres na política (114ª posição entre 134 países), inclusive na América Latina, onde estamos atrás da Argentina (24ª), Chile (26ª) e Peru (44ª), segundo o relatório Global Gender Gap. Por tudo isso, a importância de colocarmos o debate sobre mulheres e poder na rua neste próximo 8 de março, acompanhado da premissa de que não basta ser mulher – há que ter uma visão feminista sobre a desigualdade de gênero – é destaque entre as feministas. Até porque outro tema que não poderá faltar é a legalização do aborto, sobretudo porque a questão foi levantada e mostrada na mídia recentemente do ponto de vista dos fundamentalistas.

“Não basta a presidenta ser mulher”, segundo Léa Marques , da Secretaria Nacional de Mulheres da CUT, “pode até piorar”. Ela lembrou a importância da luta pela valorização do salário mínimo, junto com a luta por creches. A campanha eleitoral, segundo Luana Bonone (UBM), “gerou um discurso da visão da mulher ainda como cuidadora, mãe, embora a eleição de uma mulher não seja fato menor. Mas o governo vai precisar de pressão social”. Bernarda Perez, do Movimento de Moradia, acha imprescindível o tema do direito à moradia, pois com certeza as principais vítimas das últimas enchentes são as mulheres, já que a pobreza é feminina, as mulheres representam 70% dos pobres do mundo. Ela levantou também a questão da truculência policial na cidade, sofrida seguidamente pelos sem moradia e que está novamente em pauta, devido à luta dos estudantes contra o aumento abusivo do transporte público.

Aborto, violência e carnaval

“A pauta do aborto foi seqüestrada pela direita”, disse Luka , das Mulheres do PSol, “ acabamos tendo o recuo da candidata petista, e toda a repercussão do tema foi pelo lado dos conservadores”. Fátima Duarte, da UBM, relembra os dados sobre a precária saúde da mulher, os números da ilegalidade do aborto e propõe elaborarmos uma plataforma das mulheres para levar à presidenta. Janaína Rodrigues, do PSTU, lembra que a candidata a presidência assinou documento comprometendo-se a não mudar a lei de aborto e destaca as lutas por creche e pelo salário mínimo, “escandaloso o aumento que houve no legislativo e no executivo e o salário mínimo a 545 reais”.

A violência contra a mulher também foi destacada como integrante do capitalismo, “que é excludente por definição, e as mulheres estão entre os mais excluídos”, disse Mercedes Lima, do PCB, para quem “a Lei Maria da Penha deve ser defendida, mas sem ilusões de solução no capitalismo”. Sonia Coelho, da SOF/MMM, lembra bem que os retrocessos do STF na Lei contra a violência doméstica são “a prática que temos do Judiciário em São Paulo, onde não foi feita a implementação do Pacto, onde não temos políticas públicas para as mulheres há 20 anos”. Na campanha eleitoral, continua Soninha, “as mulheres tiveram seu estatuto rebaixado na sociedade, não demos conta de reverter isto. O 8 de março é o momento de reforçar nossa agenda, tentar reverter na sociedade a visão que passam das mulheres, trazer à tona nossas reivindicações”.

Convergência em boa parte dos pontos de vista na análise de conjuntura, o movimento de mulheres em São Paulo está dividido sobre o 8 de março na terça feira de carnaval. Algumas defendem um 8 de março diferente na terça-feira de carnaval e outras preferem adiar a tradicional manifestação de rua. Kika Bessen, da MMM, das mulheres negras e do candomblé, defendeu enfaticamente mantermos a nossa passeata em pleno carnaval, “fazermos um bloco revolucionário com a cara das mulheres” e colocarmos nosso bloco na rua, interagindo com a grande festa popular. Rachel Moreno, pelo Observatório da Mulher, assim como Márcia Balades, pela LBL , disseram que discutiram em suas organizações e também defendem o 8 de março no carnaval. “Porque queremos colocar com força nossa agenda neste 8 de março”, contradisse Soninha, “não podemos fazer na terça de carnaval, não teremos a mesma força política que podemos ter em outro dia”. Rozina , falando pela UBM também critica a manifestação na terça de carnaval, “pois temos muitas mulheres da UBM que participam do carnaval, devemos fazer na quarta, dia 9”.

O principal argumento das que defendem o dia 8 de março é não romper a tradição de marcarmos o Dia Internacional da Mulher com uma grande marcha, fazendo-a de maneira diferente, criativa, sabendo utilizar o evento do carnaval. A defesa de outro dia – 9 ou 12 – diz que a mobilização e organização durante o carnvaval é mais difícil, não combina com festejos de carnaval e que não teremos para quem falar na cidade. Debate vai, debate vem, muitas defenderam a realização de duas atividades no mês, uma no dia 8 de março e outra depois. Todas buscavam unidade para nossa ação de 8 de março. Algumas defendiam apenas um bloco, uma ação para não passar em branco o dia,, sendo a passeata com nossas bandeiras depois. Outras, além da passeata no dia 8 de março, aproveitando o carnaval para falar de nossas reivindicações, sugerem outro tipo de atividade depois como um encontro estadual de mulheres para aprofundarmos a nossa extensa pauta. Outras acham que não conseguimos organizar duas atividades próximas.

Fato é que mobilização e garra mostradas nesta primeira reunião prometem uma grande ação das mulheres pelo Dia Internacional da Mulher. O desafio é levar a unidade da diversidade feminista até o fim, mantendo-se todas num único ato pelo Dia Internacional da Mulher. As reuniões serão agora semanais, as quartas-feiras, a próxima no Sindicato dos Engenheiros, às 18h30.

Fórum Social Mundial 2

Ong UTPMP Foto: Márcio Ramos

O Fórum Social Mundial (FSM) é quase o único marco de convergência dos movimentos sociais num âmbito planetário e por isso é fundamental continuar fortalecendo-o. Esta é a hipótese essencial de Eric Toussaint, historiador e politicólogo belga que preside o Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM). Analista do altermundialismo, conhecedor interno do Fórum Social Mundial, Toussaint participa desde sua criação no Conselho Internacional, órgão que facilitou a criação do fórum. O CADTM, com presença ativa em numerosos países, particularmente em vários países africanos, é um dos atores que participam e dinamizam a preparação da próxima edição de Dacar 2011.

Qual é a sua caracterização sobre o presente do Fórum Social Mundial?

Eric Toussaint – Penso que é necessário reforçar o processo do FSM já que é quase o único marco planetário no qual convergem os movimentos sociais, ONGs, organizações políticas de esquerda e até governos progressistas. Não existe outro lugar orgânico para esta convergência. Não podemos esvaziar o FSM apesar das críticas que possamos ter a ele. Tampouco seria correto se pensar em criar algo alternativo. Porque estaríamos impulsionando uma proposta concorrente e muito limitada. Hoje o FSM é o que temos. E isso não implica não inexistência de elementos preocupantes na evolução do FSM.

Preocupantes em que sentido?

Toussaint – Existem vários aspectos. A decisão de uma maioria de dirigentes ou animadores do FSM de não querer avançar para além de um Fórum significa não querer modificar a Carta de Princípios a fim de permitir ao Fórum discutir planos de ação, plataformas, estratégias de ação. E também significa situar-se no restrito marco da Carta de Princípios, que não nos permite, enquanto Fórum, ter declarações finais e planos de ação. Um segundo aspecto: o sucesso do FSM faz com que existam poderes públicos e fundações privadas que estão bastante decididos a apoiá-lo significativamente. Surge então a tendência de organizar eventos muito custosos, com pressupostos muito elevados e isso me preocupa. Com o agravante de dois riscos bem presentes. Criar uma “indústria do FSM”, já que existem ONGs muito poderosas que estruturam grandes projetos em torno do FSM. Vivem disto. E o outro risco, aquele do nascimento de um tipo de “burocracia altermundialista”. É uma casta de dirigentes que a partir de suas funções obtém certo poder e privilégios e se perpetuam desde muito tempo.

Quais seriam os meios ou “antídotos” políticos que permitiriam desbloquear estas tendências e sinais preocupantes?

Toussaint – Felizmente há elementos positivos. O Conselho Internacional propõe tomar medidas para que não se repitam em Dacar os mesmo erros que foram cometidos em 2007 em Nairóbi, no Quênia, que foi talvez a edição mais fracassada do FSM. Tenho certo nível de confiança que em Dacar não se reproduzam estes erros, como o de outorgar o monopólio das comunicações no espaço do FSM a uma transnacional do setor, ou de impor muito elevados os preços das entradas, quase impossíveis de serem pagos pelos participantes locais.

Penso que o fundamental para o sucesso de Dacar é fortalecer a presença dos movimentos sociais africanos e do resto do mundo. Nesse sentido sopra um vento positivo. Na primeira semana de novembro passado organizamos na mesma cidade, a capital do Senegal, um encontro preparatório de movimentos sociais, a partir de um indicativo que recebemos da Assembléia dos Movimentos Populares. Este encontro se deu justamente antes de uma nova reunião do Conselho Internacional que se encontrou para acertar os últimos detalhes do evento de fevereiro próximo.

Qual é o balanço feito deste seminário preparatório?

Toussaint – Bem-sucedido no que tange à participação. Estiveram presentes muitos movimentos sociais do Senegal. Mais de 60, incluindo os grandes sindicatos rurais e urbanos que são muitos. E representantes de movimentos dos pescadores, cultivadores, dos bairros, de mulheres. Todos estavam presentes e isto demonstra uma boa dinâmica e se converte realmente em um sinal de esperança. Existe entusiasmo no que diz respeito ao apoio que o FSM pode conseguir dos bairros populares da capital senegalesa e de zonas de aldeias e sobre a recepção da mensagem do FSM. Serão feitas atividades nos bairros durante os dias prévios e durante o próprio Fórum. Nós enquanto CADTM preparamos um espetáculo político-cultural de hip-hop, com grupos musicais reconhecidos, mas que se opõem a serem objetos de mercantilização. Cantaram temas fortes, com um enfoque forte sobre a dívida, a soberania alimentícia, os acordos desfavoráveis entre Senegal e Europa etc.

Regionalmente se sente como um feito importante o apoio decidido de setores da juventude. Chegará a Dacar uma caravana de ônibus que atravessará centenas de kilômetros, vinda da Nigéria – de onde saem por volta da terceira semana de janeiro – e que passará por Benin e Togo para logo ir à Burkina Faso. E ali se encontrará com outras delegações provenientes de Conakry, capital da Guiné. A caravana, finalmente, chegará ao Senegal pela região de Kaolack.

Esperamos várias centenas de participantes nesta iniciativa, mulheres e homens, jovens especialmente. Proposta esta que impulsionamos junto com o Fórum Social Africano e redes tais como No Vox e ATTAC. O CADTM cumpre um papel de estimulador, mas não quer se apropriar de nada nem hegemonizar e muito menos monopolizar. Buscamos uma real convergência.

Organizaremos também um seminário sobre as lutas feministas, nos dias 2, 3 e 4 de fevereiro, no Senegal, porém com a participação de representantes de todos os continentes. Este tipo de iniciativas, inclusive se o próprio FSM de Dacar tivesse resultados limitados, já confirmaria o valor da convocatória. O essencial é fortalecer as dinâmicas sociais…

Existe alguma tentativa de lançar uma dinâmica participativa na sub-região?

Toussaint – Efetivamente. A Nigéria está a uns 2.500 km de Dacar. Passar por estes diferentes países nos dá a possibilidade de tomar e fazer com que se tome conhecimento do processo do Fórum. Em cada parada importante serão feitos eventos para explicar o que será o FSM de Dacar. A partir de tudo isto eu diria que vivo um entusiasmo prudente.

Seria uma dinâmica diferente da que você considerava como a edição fracassada de Nairóbi?

Toussaint – É a esperança. Ainda que devamos ser cautelosos sobre os resultados de Dacar já que um mês antes do FSM a população local não está nem informada sobre o evento, que é muito diferente do que aconteceu em Belém em 2009 ou em Porto Alegre em 2005 e nas edições anteriores. Porém, objetivamente se dão condições para uma participação ampla do povo senegalês e dos movimentos sociais do país e da região. Veremos se este espaço aberto, este convite amplo e facilitado para as pessoas do lugar, vai provocar uma boa participação popular.

Minha dúvida é, segundo as avaliações de colegas sindicalistas, que os movimentos sociais do Senegal atravessam hoje um de seus piores momentos dos últimos 20 anos no que diz respeito à capacidade de mobilização. Não é a melhor conjuntura, mas isto não depende só de certos movimentos senão de condições políticas globais.

Sem esquecermos outro elemento muito importante: o primeiro dia – e em dias anteriores – do FSM colocará uma tônica particular sobre os 50 anos da independência da África. Com atividades na ilha de Gorée, próxima a Dacar, de onde partiram mais de um milhão de escravos nos séculos XVI, XVII e XVIII. Uma denúncia forte para o escravismo de ontem e para o sistema de hoje. Num nível simbólico e da memória coletiva vai ser um momento importante, trazendo uma ponte entre passado e futuro… Os desafios de confrontar as crises mundiais nas distintas vertentes e momentos históricos.

Se, muitas vezes, fala-se de crises mundiais, de propostas hegemônicas dominantes, novamente o FSM de Dacar deverá observar também o que acontecerá em Davos, Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial, que se realizará entre 26 e 30 de janeiro….

Toussaint – De fato. Vivemos uma crise do sistema onde tudo está interconectado. A crise é financeira, econômica, climática, alimentícia, migratória. Uma crise que toca a gestão mundial, porque não há nenhuma instituição mundial que goze de real credibilidade. O G20 não é mais legítimo que o G8. E a ONU de forma nenhuma cumpre o papel previsto pela sua Carta.

É verdade que esta crise é produto do avanço da desregulamentação, e, no entanto, está também ligada ao mesmo sistema. A mensagem do FSM deverá ser ainda mais clara do que quando nasceu há 10 anos. Salientar a necessidade de uma resistência global e também das alternativas pra propor um sistema alternativo ao sistema capitalista patriarcal globalizado.

Os que se reúnem em Davos seguem momentaneamente com a capacidade de lançar ofensivas contra os “de baixo”. Estes estão pouco a pouco superando a sua fragmentação – ainda que com dificuldades – para progredir em direção a oferecer uma alternativa global que é mais do que necessária. E penso que a solução não passa por reformar o atual sistema senão contra ele mesmo.

Colaboração da imprensa E-CHANGER, ONG suíça de cooperação solidaria.

Tradução de Cainã Vidor. Publicado originalmente por http://alainet.org

Fórum Social Mundial 2011

Foto: Márcio Ramos

O que está em jogo no Fórum Social Mundial 2011

As questões do Fórum Social Mundial de Dakar estão organizadas em três grandes temas: a conjuntura global e a crise, a situação dos movimentos sociais e cívicos e o processo do Fórum Social Mundial. O FSM Dakar também será o momento para o debate sobre o caráter incompleto da descolonização e devir de uma nova fase descolonização. No Fórum de Dakar uma outra questão fundamental será a do seu alcance político nas mobilizações sociais e da cidadania. Isso conduz ao problema da expressão política dos movimentos sociais e de sua relação com os governos.

Gustave Massiah e Nathalie Péré-Marzano

A conjuntura global e a crise

A situação global está marcada pelo aprofundamento da crise estrutural da globalização capitalista. As quatro dimensões da crise (social, geopolítica, ambiental e ideológica) serão abordadas em Dakar. A crise social será enfrentada em particular sob os pontos de vista da desigualdade, da pobreza e da discriminação, enquanto a crise geopolítica será discutida em particular da perspectiva da guerra e do conflito, do acesso às matérias primas e da emergência de novas potências. A crise ambiental será debatida, em particular, sob a perspectiva da mudança climática, enquanto a crise ideológica será discutida da perspectiva de ideologias seguras, da questão das liberdades e da democracia e da cultura, presentes desde o Fórum Social de Belém, que serão analisadas em profundidade.

A evolução da crise lança luz sobre uma situação contraditória. Análises do movimento altermundista estão sendo aceitas, reconhecidas e contribuem para a crise do neoliberalismo. As propostas produzidas pelos movimentos são aceitas como base, por exemplo, para o monitoramento dos setores financeiro e bancário, para a eliminação dos paraísos fiscais, de tributos internacionais, para o conceito de segurança alimentar, até então considerados heresias, estão nas agendas do G8 e do G20. E mesmo assim ainda não foram traduzidos em políticas viáveis. Essas propostas tem sido acolhidas, mas não se efetivam por causa da arrogância das classes dominantes confiantes no seu poder.

A validação das agendas resulta na transformação das palavras de ordem dos movimentos em lugares comuns. É preciso refinar as perspectivas e conceder mais relevância ao debate estratégico, à articulação entre a resistência de curto prazo e a de médio prazo e à mudança em curso sob a superfície dos acontecimentos. A situação lança uma luz sobre a natureza dual da crise, tensionada entre a crise do neoliberalismo, que é a fase da globalização capitalista e a crise da própria globalização capitalista; uma crise do sistema que pode ser analisada como uma crise de civilização, a crise da civilização ocidental, estabelecida desde princípios do século XV.

Nesse contexto, alianças estratégicas devem obedecer a duas exigências. A primeira está vinculada à luta contra a pobreza, a miséria e a desigualdade, o uso do trabalho precário e a violação das liberdades no mundo, para melhorar as condições de vida e a expressão da classe trabalhadora diretamente afetada pela economia dominante e pelas políticas públicas. A segunda exigência prioriza o fato de que outro mundo é possível; um mundo necessário envolve um rompimento definitivo com os modos de produção e consumo da economia e da sociedade, bem como a redistribuição ambiental, com o equilíbrio geopolítico do poder estabelecido nas décadas recentes nos modelos democráticos proeminentes do ocidente.

Três propostas emergem como respostas à crise: o neoconservadorismo, que propõe a continuação do atual padrão dominante e dos privilégios que os acompanham às custas das liberdades, da continuidade das desigualdades e da extensão dos conflitos e das guerras; uma reestruturação profunda do capitalismo defendido pelos militantes do “New Deal Verde”, que propõe regulação global, redistribuição relativa e uma promoção voluntarista das “economias verdes”; e uma alternativa ambiental e social radical, que corresponde a uma superação do atual sistema dominante. O Fórum Social Mundial reúne todos os que rejeitam a opção neoconservadora e a continuação do neoliberalismo, constituindo um fórum pela mudança vigorosa da discussão entre os movimentos que fazem parte de uma perspectiva de avanço de um “New Deal Verde” e os que defendem a necessidade de alternativas radicais.

A referência ao contexto africano

O Fórum Social Mundial de Dakar vai enfatizar questões essenciais que aparecem com mais nitidez com as referências ao contexto africano. A ênfase estará no lugar da África no mundo e na crise. A África é objeto privilegiado de análise, ao tempo em que exemplifica a situação global. Não é pobre; é empobrecida. A África não é marginalizada; é explorada. Com suas matérias primas e recursos humanos cobiçados pelos países do Norte e pelas potências emergentes, e com a cumplicidade ativa dos líderes de alguns estados africanos, a África é indispensável para a economia global e para o equilíbrio ambiental do planeta.

A ênfase também estará na descolonização como um processo histórico incompleto. A crise do neoliberalismo e a crise de hegemonia dos Estados Unidos são indicativos da possibilidade de uma nova fase de descolonização, e do enfraquecimento das potências coloniais europeias. A representação Norte-Sul está mudando, uma situação que não elimina a realidade geopolítica e as contradições entre o Norte e o Sul.

O Fórum priorizará as diásporas e as migrações como uma das questões centrais da globalização. A questão será enfrentada com base na situação atual dos imigrantes e seus direitos, numa análise de longo termo, com o comércio de escravos posto sob a perspectiva do crescimento do papel das diásporas culturais e econômicas.

O Fórum debaterá as mudanças no sistema internacional, nas instituições multilaterais e nas negociações internacionais. Em particular, vai focar nas questões que tornam clara a necessidade de regulação global: equilíbrio ambiental, migração e diásporas, conflitos e guerras.

A situação dos movimentos sociais e comunitários

A convergência dos movimentos de que o Fórum Social Mundial se constitui está comprometida com a resistência ambiental e democrática. Com as lutas sociais presentes nos combates cívicos pelas liberdades e contra a discriminação. A resistência é inseparável das práticas emancipatórias específicas levadas a cabo pelos movimentos.

A direção estratégica dos movimentos está voltada para a acessibilidade universal ao direito, pela igualdade de direitos e pelo imperativo democrático. Os movimentos trazem consigo um movimento histórico de emancipação que são extensão e renovação de movimentos anteriores. Será em torno da definição, da implementação e da garantia de direitos que um novo período de emancipação possível será definido. Essa definição exige que essas concepções de diferentes gerações de direitos sejam revisitadas: direitos políticos e civis formalizados pelas revoluções do século XVIII, reafirmados pela Declaração Universal de Direitos Humanos, complementadas pelos desafios do totalitarismo dos anos 60; os direitos dos povos que o movimento de descolonização promoveu, com base no direito da autodeterminação, o controle dos recursos naturais, o direito ao desenvolvimento e à democracia; direitos sociais, econômicos e culturais especificados pela Declaração Universal e estipulados pelo Protocolo Adicional adotado pelas Nações Unidas na Assembleia Geral em 2000.

Uma nova geração de direitos está em gestação. Direitos que correspondem à expressão da dimensão global e dos direitos definidos com vistas a um mundo diferente da globalização dominante. A partir desse ponto de vista, duas questões serão as mais proeminentes em Dakar: direitos ambientais para a preservação do planeta e os direitos dos migrantes e da migração que questione o papel das fronteiras, bem como a organização do mundo. O Fórum Social Mundial de Belém enfatizou os benefícios para os movimentos de abarcarem a agenda ambiental em todas as suas dimensões, do clima à destruição dos recursos naturais e da biodiversidade, e da preservação da água, da terra e das suas matérias primas. O FSM de Dakar priorizará um novo tratamento da questão da migração, com a ligação entre migrações e diásporas e a Carta Mundial dos Migrantes.

O FSM Dakar também será o momento para o debate sobre o caráter incompleto da descolonização e devir de uma nova fase descolonização. É nesse contexto que a relação entre o Norte e o Sul está mudando. Considerando que a representação Norte/Sul está mudando na perspectiva da estrutura social, há um Norte no Sul e um Sul no Norte. A emergência do poder de grandes estados está mudando a economia global e o equilíbrio de forças geopolíticas, e é reforçado pelo crescimento de mais de trinta estados que podem ser chamados de economias emergentes. Para tudo isso, contudo, as formas de dominação continuam a ser cruciais na ordem global. O conceito de Sul continua a ser altamente relevante. O Fórum Social Mundial enfatiza uma nova questão: o papel histórico e estratégico dos movimentos sociais nos países emergentes como um todo em relação ao seu Estado e o papel futuro desses estados no mundo. Essa questão, que já marcou os fóruns com o debate sobre o papel jogado pelos movimentos no Brasil e na Índia assume uma importância particular estratégica com a mudança geopolítica associada à crise.

O Fórum Social Mundial é o ponto de encontro para movimentos de vários tipos e de diferentes partes do mundo. Esses movimentos já começaram a se encontrar em redes que reúnem diferentes movimentos nacionais. O processo dos fóruns revela duas mudanças. A primeira delas é as conexões entre movimentos de acordo com suas regiões, características e contextos específicos unificam os movimentos da América Latina, América do Norte e Sul da Ásia (e em particular, a Índia), o sudoeste da Ásia, Japão, Europa e Rússia. O Fórum Social Mundial de Dakar terá dois impactos maiores. O ano de 2010 e os preparativos para Dakar foram marcados pela nova importância conquistada pelos movimentos da região do Magreb-Machrek.

O vigor dos movimentos sociais africanos será visível em Dakar, na forma de movimentos de campesinos, sindicatos, grupos feministas, de juventude, habitantes locais, grupos de imigrantes reprimidos, grupos indígenas e culturais, comitês contra a pobreza e contra a dívida, a economia informal e a economia solidária, etc. Esses movimentos são visíveis, com sua convergência diversidade em sub-regiões da África: no Norte da África e em particular no Magreb, no Oeste e na África Central, na África do Leste e na do Sul.

No Fórum Social Mundial de Dakar uma questão fundamental será a do seu alcance político nas mobilizações sociais e da cidadania. Isso conduz ao problema da expressão política dos movimentos e das extensões dos movimentos em relação às instituições, ao cenário político e aos governos dos estados. Com respeito aos movimentos como um todo, a análise avança sobre a importância da especificidade, via invenção de uma nova cultura política, da relação entre poder e política. O processo do FSM pôs em cena as bases para essa nova cultura política (horizontalidade, diversidade, convergência das redes de cidadãos e dos movimentos sociais, atividades autogestionadas, etc.) mas ainda deve inovar mais em muitas dificuldades relativas à política e ao poder, para conseguir superar a cultura política caduca, que para a imensa maioria persevera dominante. Além disso, a tradução política dos avanços e das mobilizações dependem das instituições e das representações: num nível local, com a possibilidade de influenciar as decisões das autoridades locais; em nível nacional e internacional, com os governos dos estados, os regimes políticos e as instituições multilaterais; em nível regional e global, com alianças geoeconômicas e geoculturais e com a construção de uma opinião pública global e uma consciência universal.

O processo dos Fóruns Sociais Mundiais

Depois de o Fórum Social Mundial de Belém ter tomado o ano de 2010 como o ano da ação global, mais de quarenta eventos demonstraram o vigor do seu processo. Isso incluiu as atividades dos 10 anos do FSM em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial dos Estados Unidos, o Fórum Social Mundial do México e o Fórum das Américas, vários fóruns na Ásia, o Fórum Mundial de Educação na Palestina, mais de oito fóruns do Magreb e Machrek, etc. Cada evento associado foi iniciativa do comitê local. Esse comitê se refere na Carta de Princípios do Fórum Social Mundial, que adota uma metodologia privilegiando as atividades autogestionadas e declara sua iniciativa no Conselho Internacional do FSM. Essa multiplicação de eventos abre espaço para projeções relativos à extensão do processo dos fóruns. Ele assumiu uma nova forma, “um fórum estendido”, que consiste no uso da Internet para ligar iniciativas locais em diferentes países, com um Fórum em cada. Assim, enquanto ocorria o Fórum Mundial da Educação na Palestina, mais de 40 iniciativas estavam em curso em Ramallah. As iniciativas associadas com “Dakar estendida” inovarão o processo dos fóruns.

A preparação para o FSM Dakar baseou-se nos eventos do ano da ação global, 2010, bem como numa série de iniciativas que asseguraram a convergência de ações e permitiram novos caminhos a serem explorados em termos de organização e metodologia dos fóruns. Assim, já se pode usar as caravanas convergindo para Dakar, dos fóruns de mulheres em Kaolack, das migrações e diásporas, dos encontros para convergência de ações, dos fóruns associados (Assembleia Mundial dos Povos, fóruns pela ciência e pela democracia, sindicatos, autoridades locais e da periferia, parlamentares, teologia e libertação, etc.).

Depois de Dakar, um novo ciclo no processo dos fóruns irá começar. O fortalecimento do processo dos fóruns sociais mundiais poderia ocorrer com a reunião com grandes eventos, como o Rio+20, G8, G20, cúpulas e outras poderiam acordar com sua perspectiva. Seriam reconhecidos como eventos associados ao processo do fórum, estabelecendo assim uma proximidade com os acontecimentos de Seattle, em 1999, que contribuíram para a criação do FSM.

- Gustave Massiah e Nathalie Péré-Marzano, representantes da Research and Information Centre for Development (CRID – France) no Conselho Internacional do Fórum Social Mundial.

Tradução: Katarina Peixoto

“A crise capitalista também é de urbanização”

Favela Padroeira II, Osasco. Foto: Márcio Ramos

David Harvey é um geógrafo britânico reconhecido internacionalmente. Estudou a relação entre as crises financeiras e urbanas. Em entrevista ao jornal Página/12, ele sustenta que a sucessão de crises no sistema é alimentada, entre outras coisas, por uma febre da construção que, por sua vez, provoca crise no capitalismo em sua atual etapa hegemonizada pelas finanças. Harvey defende ainda que existe uma estreita relação entre urbanização e formação das crises. Além dos Estados Unidos, cita como exemplo a Grécia e a Espanha. Parte da explicação da crise nestes países, defende o geógrafo, está vinculado a péssimos investimentos em infraestrutura.

Natalia Aruguete – Página/12

Guerreiras defendem seu lar, filhos, marido….

Despejo dia 15 de janeiro de 2011, com direito a polícia na porta. É assim mesmo. Duvida? Vai até la…

Fonte: cronicasdofrank.blogspot.com/​2009/​07/​lenda-da-cabocla-jurema_9080.html

A lenda da cabocla Jurema

O sol girou uma vez mais ao redor da Terra e quando os raios da manhã tocaram a sua testa, a cabocla gritou:

- Sou Jurema!!!

E pulou
do
galho
mais alto da árvore gigante e pareceu voar por entre os pássaros e outros seres alados da floresta; mergulhando no rio profundo, de onde emergiu, nadando com os botos que entendiam o seu canto:

“Cabocla
Seu penacho é verde
Seu penacho é verde
É da cor do mar

É a cor da Cabocla Jurema
É a cor da Cabocla Jurema
É a cor da Cabocla Jurema
Jurema”

Cabocla, filha valente de Tupinambá. Adotada pelo mundo, foi encontrada aos pés do arbusto da planta encantada que lhe deu o nome, e cresceu forte, bonita, com a formosura da noite e a firmeza do dia. Corajosa, a cabocla tornou-se a primeira guerreira mulher da tribo, pois a sua força e agilidade no manejo das armas e na ciência da mata, se tornara uma lenda por todo o continente; onde contadores de estórias, aos pés da fogueira, falavam da índia da pena dourada, que era a própria Mãe Divina encarnada.

Nada causava medo na cabocla, até o dia em que ela encontrou o seu maior adversário: o amor. Jurema se apaixonou por um caboclo chamado Huascar, de uma tribo inimiga chamada Filhos do Sol, e que fora preso numa batalha.

Os dias se passaram e o amor aumentava, pois o pior de amar não é amar sozinho e sim ser amado em retorno, pois exige do amado, uma ação em prol do amor.

Pelo olhar, o caboclo Huascar dizia:

“Oh doce Cabocla
meu doce de cambucá
minha flor cheirosa de alfazema
tem pena deste caboclo
o que eu te peço é tão pouco
minha linda cabocla Jurema
tem pena desse sofredor
que o mal destino condenou
me liberta dessa algema
me tira desse dilema
minha linda cabocla Jurema”

Jurema que aprendera a resistir ao canto do boto, ao veneno da cascavel e da armadeira, já resistira bravamente a centenas de emboscadas e que sentia o cheiro à distância de ciladas, não conseguiu resistir ao amor que fluia do seu peito por aquele guerreiro. Observando o caboclo preso, ela viu nos olhos dele, as mil vidas que eles passaram juntos, viu seus filhos, o amor que os unia além da carne e percebeu que não foi por acaso, que ele fora o único caboclo capturado vivo, e decidiu libertá-lo, mesmo sabendo que seria expulsa da sua tribo.

Na fuga, seu próprio povo a perseguiu, e em meio a chuva de flechas voando na direção do caboclo fugitivo, foi Jurema que caiu, salvando o seu amado e recebendo a ponta da morte que era pra ele, no seu próprio peito.

Conta a lenda, que o caboclo Huascar voltou a Terra do Sol e fundou um império nas montanhas andinas e mandou erguer um templo chamado Matchu Pitchu em homenagem a Jurema, onde, só as mulheres da tribo habitariam e lá aprenderiam a ser guerreiras como a mulher que salvara a sua vida. E no lugar onde a Jurema caiu, nasceu uma planta robusta e muito resistente que dá flor o ano inteiro, cujo formato exótico e o tom amarelo-alaranjado intenso chamou atenção de todas as tribos, pois tudo dessa planta poderia ser utilizado, desde as sementes, até as flores e o caule; e porque as flores dessa planta estão sempre viradas para o astro maior; ela ficou conhecida como girassol.